A questão do compromisso do profissional com a
sociedade nos coloca alguns pontos que devem ser analisados. Algumas reflexões
das quais não podemos fugir, necessárias para o esclarecimento do tema.
Em
primeiro lugar, a expressão “o compromisso do profissional com a sociedade” nos
apresenta o conceito do compromisso definido pelo complemento “do profissional”,
ao qual segue o termo “com a sociedade”. Somente a presença do complemento na
frase indica que não se trata do compromisso de qualquer um, mas do
profissional. A expressão final, por sua vez, define o pólo para o qual o
compromisso se orienta e no qual o ato comprometido só aparentemente terminaria,
pois na verdade não termina, como trataremos de ver mais adiante.
As
palavras que constituem a frase a ser analisada não estão ali simplesmente
jogadas, postas arbitrariamente. Diríamos que se encontram, inclusive,
“comprometidas” entre si e implicam, na estrutura de suas relações, uma
determinada posição, a de quem as expressou.
O
compromisso seria uma palavra oca, uma abstração, se não envolvesse a decisão
lúcida e profunda de quem o assume. Se não se desse no plano do concreto.
Se
prosseguirmos na análise da frase proposta, sentimos a necessidade de uma
penetração cada vez maior no conceito do compromisso, com a qual podemos
apreender aquilo que faz com que um ato se constitua em compromisso.
Mas,
no momento em que esta necessidade nos é imposta, cada vez mais claramente, como
uma exigência prévia à análise do compromisso definido - o do profissional com a sociedade - uma
reflexão anterior se faz necessária. É a que se concentra em torno da pergunta:
quem pode comprometer-se?
Contudo, como pode parecer, esta
pergunta não se formula no sentido da identificação de quem, entre alguns
sujeitos hipotéticos — A, B ou C —, é o protagonista de um ato de compromisso,
numa situação dada. É uma pergunta que se antecipa a qualquer situação de
compromisso. Indaga sobre a ontologia do ser sujeito do compromisso. A resposta
a esta indagação nos faz entender o ato comprometido, que começa a desvelar-se
diante da nossa curiosidade.
De
fato, ao nos aproximarmos da natureza do ser que é capaz de se comprometer,
estaremos nos aproximando da essência do ato comprometido.
A
primeira condição para que um ser possa assumir um ato comprometido está em ser
capaz de agir e refletir.
É preciso que seja capaz de, estando
no mundo, saber-se nele. Saber que, se a forma pela qual está no mundo
condiciona a sua consciência deste estar, é capaz, sem dúvida, de ter
consciência desta consciência condicionada. Quer dizer, é capaz de intencionar
sua consciência para a própria forma de estar sendo, que condiciona sua
consciência de estar.
Se a
possibilidade de reflexão sobre si, sobre seu estar no mundo, associada
indissoluvelmente à sua ação sobre o mundo, não existe no ser, seu estar no
mundo se reduz a um não poder transpor os limites que lhe são impostos pelo
próprio mundo, do que resulta que este ser não é capaz de compromisso. É um ser
imerso no mundo, no seu estar, adaptado a ele e sem ter dele consciência.
Sua imersão na realidade, da qual não pode sair, nem “distanciar-se” para
admirá-la e, assim, transformá-la, faz dele um ser “fora” do tempo ou “sob”
o tempo ou, ainda, num tempo que não é seu. O tempo para tal ser “seria” um
perpétuo presente, um eterno hoje.
A-histórico, um ser como este não pode comprometer-se; em lugar de
relacionar-se com o mundo, o ser imerso nele somente está em contato com ele.
Seus contatos não chegam a transformar o mundo, pois deles não resultam produtos
significativos, capazes de (inclusive, voltando-se sobre ele) marcá-los.
Somente um ser que é capaz de sair de seu contexto, de “distanciar-se”
dele para ficar com ele; capaz de admirá-lo para, objetivando-o, transformá-lo
e, transformando-o, saber-se transformado pela sua própria criação; um ser
que é e está sendo no tempo que é o seu, um ser histórico, somente este é capaz,
por tudo isto, de comprometer-se.
Além
disso, somente este ser é já em si um compromisso. Este ser é o homem.
Mas, se este ser é o homem que, além
de poder comprometer-se, já é um compromisso, o que é o compromisso?
Uma
vez mais teremos de voltar ao próprio homem, em busca de uma resposta. Porém,
não a um homem abstrato, mas ao homem concreto, que existe numa situação
concreta.
Afirmamos anteriormente que a
primeira condição para que um ser pudesse exercer um ato comprometido era a sua
capacidade de atuar e refletir. É exatamente esta capacidade de atuar, operar,
de transformar a realidade de acordo com finalidades propostas pelo homem, à
qual está associada sua capacidade de refletir, que o faz um ser da práxis.
Se
ação e reflexão, como constituintes inseparáveis da práxis, são a maneira humana
de existir, isto não significa, contudo, que não estão condicionadas, como se
fossem absolutas, pela realidade em que está o homem.
Assim,
como não há homem sem mundo, nem mundo sem homem, não pode haver reflexão e ação
fora da relação homem-realidade. Esta relação homem-realidade, homem-mundo, ao
contrário do contato animal com o mundo, como já afirmamos, implica a
transformação do mundo, cujo produto, por sua vez, condiciona ambas, ação e
reflexão. É, portanto, através de sua experiência nestas relações que o homem
desenvolve sua ação-reflexão, como também pode tê-las atrofiadas. Conforme se
estabeleçam estas relações, o homem pode ou não ter condições objetivas para o
pleno exercício da maneira humana de existir.
Contudo, o fundamental é que esta realidade, proibitiva ou não do pensar
e do atuar autênticos, é criação dos homens. Daí ela não pode, por ser histórica
tal como os homens que a criam, transformar-se por si só. Os homens que a criam
são os mesmos que podem prosseguir transformando-a.
Pode-se pensar, diante desta afirmação, que estamos numa espécie de beco sem saída. Por que se a realidade, criada pelos homens, dificulta-lhes objetivamente seu atuar e seu pensar autênticos, como podem, então, transformá-la para que possam pensar e atuar verdadeiramente? Se a realidade condiciona seu pensar e atuar não-autênticos, como podem pensar corretamente o pensar e o atuar incorretos? É que, no jogo interativo do atuar-pensar o mundo, se, num momento da experiência histórica dos homens, os obstáculos ao seu autêntico atuar e pensar não são visualizados, em outros, estes obstáculos passam a ser percebidos para, finalmente, os homens ganharem com eles sua razão. Os homens alcançam a razão dos obstáculos na medida em que sua ação é impedida. É atuando ou não podendo atuar que se lhes aclaram os obstáculos à ação, a qual não se dicotomiza da reflexão. E como o próprio da existência humana é a atuação-reflexão, quando se impede um homem comprometido de atuar, os homens se sentem frustrados e por isso procuram superar a situação de frustração.(1)
Impedidos de atuar, de refletir, os homens encontram-se profundamente
feridos em si mesmos, como seres do compromisso. Compromisso com o mundo, que
deve ser humanizado para a humanização dos homens, responsabilidade com estes,
com a história. Este compromisso com a humanização do homem, que implica uma
responsabilidade histórica, não pode realizar-se através do palavrório, nem de
nenhuma outra forma de fuga do mundo, da realidade concreta, onde se encontram
os homens concretos. O compromisso, próprio da existência humana, só existe no
engajamento com a realidade, de cujas “águas” os homens verdadeiramente
comprometidos ficam “molhados”, ensopados. Somente assim o compromisso é
verdadeiro. Ao experienciá-lo, num ato que necessariamente é corajoso, decidido
e consciente, os homens já não se dizem neutros. A neutralidade frente ao mundo,
frente ao histórico, frente aos valores, reflete apenas o medo que se tem de
revelar o compromisso. Este medo quase sempre resulta de um “compromisso” contra
os homens, contra sua humanização, por parte dos que se dizem neutros. Estão
“comprometidos” consigo mesmo, com seus interesses ou com os interesses dos
grupos aos quais pertencem. E como este não é um compromisso verdadeiro, assumem
a neutralidade impossível.
O
verdadeiro compromisso é a solidariedade, e não a solidariedade com os que negam
o compromisso solidário, mas com aqueles que, na situação concreta, se encontram
convertidos em “coisas”.
Comprometer-se com a desumanização é assumi-la e, inexoravelmente,
desumanizar-se também.
Esta é
a razão pela qual o verdadeiro compromisso, que é sempre solidário, não pode
reduzir-se jamais a gestos de falsa generosidade, nem tampouco ser um ato
unilateral, no qual quem se compromete é o sujeito ativo do trabalho
comprometido e aquele com quem se compromete a incidência de seu compromisso.
Isto seria anular a essência do compromisso, que, sendo encontro dinâmico de
homens solidários, ao alcançar aqueles com os quais alguém se compromete, volta
destes para ele, abraçando a todos num único gesto amoroso.
Pois
bem, se nos interessa analisar o compromisso do profissional com a sociedade,
teremos que reconhecer que ele, antes de ser profissional, é homem. Deve ser
comprometido por si mesmo.
Como
homem, que não pode estar fora de um contexto histórico-social em cujas
inter-relações constrói seu eu, é um ser autenticamente comprometido, falsamente
“comprometido” ou impedido de se comprometer verdadeiramente. (2)
No
caso do profissional, é necessário juntar ao compromisso genérico, sem dúvida
concreto, que lhe é próprio como homem, o seu compromisso de profissional.
Se de
seu compromisso como homem, como já vimos, não pode fugir, fora deste
compromisso verdadeiro com o mundo e com os homens, que é solidariedade com eles
para a incessante procura da humanização, seu compromisso como profissional,
além de tudo isto, é uma dívida que assumiu ao fazer-se profissional.
Seu
compromisso como profissional, sem dúvida, pode dicotomizar-se de seu
compromisso original de homem. O compromisso, como um quefazer radical e
totalizado, repele as racionalizações. Não posso nas segundas-feiras assumir
compromisso como homem, para nas terças-feiras assumi-lo como profissional. Uma
vez que “profissional” é atributo de homem, não posso, quando exerço um quefazer
atributivo, negar o sentido profundo do quefazer substantivo e original. Quanto
mais me capacito como profissional, quanto mais sistematizo minhas experiências,
quanto mais me utilizo do patrimônio cultural, que é patrimônio de todos e ao
qual todos devem servir, mais aumenta minha responsabilidade com os homens. Não
posso, por isso mesmo, burocratizar meu compromisso de profissional, servindo,
numa inversão dolosa de valores, mais aos meios que ao fim do homem. Não posso
me deixar seduzir pelas tentações míticas, entre elas a da minha escravidão às
técnicas, que, sendo elaboradas pelos homens, são suas escravas e não suas
senhoras.
Não
devo julgar-me, como profissional, “habitante” de um mundo estranho; mundo de
técnicos e especialistas salvadores dos demais, donos da verdade, proprietários
do saber, que devem ser doados aos “ignorantes e incapazes”. Habitantes de
um gueto, de onde saio messianicamente para salvar os “perdidos”, que estão
fora. Se proceder assim, não me comprometo verdadeiramente como
profissional nem como homem. Simplesmente me alieno.
Todavia, existe algo que deve ser destacado. Na medida em que o
compromisso não pode ser um ato passivo, mas práxis - ação e reflexão sobre a realidade -,
inserção nela, ele implica indubitavelmente um conhecimento da realidade.
Se o compromisso só é válido quando está carregado de humanismo, este, por sua
vez, só é conseqüente quando está fundado cientificamente. Envolta, portanto, no
compromisso do profissional, seja ele quem for, está a exigência de seu
constante aperfeiçoamento, de superação do especialismo, que não é o mesmo
que especialidade. O profissional deve ir ampliando seus conhecimentos em torno
do homem, de sua forma de estar sendo no mundo, substituindo por uma visão
crítica a visão ingênua da realidade, deformada pelos especialismos
estreitos.
Não é
possível um compromisso verdadeiro com a realidade, e com os homens concretos
que nela e com ela estão, se desta realidade e destes homens se tem uma
consciência ingênua. Não é possível um compromisso autêntico se, àquele que se
julga comprometido, a realidade se apresenta como algo dado, estático e
imutável. Se este olha e percebe a realidade enclausurada em departamentos
estanques. Se não a vê e não a capta como uma totalidade, cujas partes se
encontram em permanente interação. Daí sua ação não poder incidir sobre as
partes isoladas, pensando que assim transforma a realidade, mas sobre a
totalidade. É transformando a totalidade que se transformam as partes e
não o contrário. No primeiro caso, sua ação, que estaria baseada numa visão
ingênua, meramente “focalista” da realidade, não poderia constituir um
compromisso.
Um
profissional, por exemplo, para quem a Reforma Agrária é apenas um instrumento
jurídico que normaliza uma sociedade em transformação, sem conseguir apreendê-la
em sua complexidade, em sua globalidade, não pode em termos concretos
comprometer-se com ela, ainda que ideologicamente a aceite.
A questão é que a Reforma Agrária,
como um processo global, não é algo que, não existindo anteriormente, passa
a existir completa e acabadamente, com a instauração de uma estrutura nova. A
Reforma Agrária, por ser um processo, é algo dinâmico. Dá-se no domínio humano.
As relações homem-realidade, que se verificavam na estrutura anterior,
necessariamente deixaram sua marca profunda na forma de estar sendo do camponês.
Mudada a velha estrutura, através da Reforma, se inevitável é que, cedo ou
tarde, a estrutura instaurada condicione novas formas de pensar e de atuar,
resultantes das novas relações homem-realidade, isto não significa que essa
mudança se dê instantaneamente.
O
compromisso, portanto, de um profissional da Reforma Agrária que a
veja sob esta visão criticada, não pode ser verdadeiro, não pode ser o
compromisso do profissional, em cuja ação de caráter técnico se esquece do homem
ou se o minimiza, pensando, ingenuamente, que existe o dilema
humanismo-tecnologia. E, respondendo ao desafio do falso dilema, (2) opta pela
técnica, considerando que a perspectiva humanista é uma forma de retardar as
soluções mais urgentes. O erro desta concepção é tão nefasto como o erro da sua
contrária - a falsa concepção do humanismo -, que vê na tecnologia a razão dos
males do homem moderno. E o erro básico de ambas, que não podem oferecer a seus
adeptos nenhuma forma real de compromisso, está em que, perdendo elas a dimensão
da totalidade, não percebem o óbvio: que humanismo e tecnologia não se excluem.
Não percebem que o primeiro implica a segunda e vice-versa. Se o meu compromisso
é realmente com o homem concreto, com a causa de sua humanização, de sua
libertação, não posso por isso mesmo prescindir da ciência, nem da tecnologia,
com as quais me vou instrumentando para melhor lutar por esta causa.
Por
isso também não posso reduzir o homem a um simples objeto da técnica, a um
autômato manipulável.
Quase
sempre, técnicos de boa vontade, embora ingênuos, deixam-se levar pela tentação
tecnicista (mitificação da técnica) e, em nome do que chamam “necessidade de não
perder tempo”, tentam, verticalmente, substituir os procedimentos empíricos do
povo (camponeses, por exemplo) por sua técnica.
Partem
do pressuposto verdadeiro “de que é, não só necessário, mas urgente, aumentar a
produção agrícola”. Uma das “exigências para consegui-lo está na mudança
tecnológica que deve verificar-se”. Outro pressuposto válido.
No
entanto, ao desconhecer que tanto sua técnica como os procedimentos empíricos
dos camponeses são manifestações culturais e, deste ponto de vista, ambas
válidas, cada qual em sua medida, e que, por isso, não podem ser
mecanicamente substituídos, enganam-se e já não podem comprometer-se.
Terminam, então, por cair nesta irônica contradição: “para não perder
tempo” o que fazem é perdê-lo.
Deformados pela acriticidade, não
são capazes de ver o homem na sua totalidade, no seu quefazer-ação-reflexão, que
sempre se dá no mundo e sobre ele. Pelo contrário, será mais fácil, para
conseguir seus objetivos, ver o homem como uma “lata” vazia que vão enchendo com
seus “depósitos” técnicos. Mas ao desenvolver desta forma sua ação, que tem sua
incidência neste “homem lata”, podemos melancolicamente perguntar: “onde está
seu compromisso verdadeiro com o homem, com sua humanização?”
Todavia em nossos países há sem dúvida uma sombra que ameaça permanentemente o compromisso verdadeiro. Ameaça que se concretiza na autenticidade do compromisso. Estamos nos referindo à alienação (ou alheamento) cultural que sofrem nossas sociedades.(3)
Com o
centro de decisão econômica e cultural, em grande parte fora delas (portanto,
sociedades de economia periférica, dependente, exportadora de matérias-primas e
importadoras não somente de produtos manufaturados, mas também de idéias, de
técnicas, de modelos), são sociedades “seres para outro”.
Assim,
o primeiro grande obstáculo que se apresenta nestas sociedades ao compromisso
autêntico encontra-se na falta de autenticidade de seu próprio ser dual. Estas
sociedades são e não são elas próprias.
Na
medida em que, em grande parte, para solucionar seus problemas, importam
técnicas e tecnologias, sem a devida “redução sociológica” destas a suas
condições objetivas (não necessariamente idênticas às das sociedades
metropolitanas, onde se desenvolvem estas tecnologias importadas), não podem
proporcionar as condições para o compromisso autêntico.
Não há
técnicas neutras que possam ser transplantadas de um contexto a outro. A
alienação do profissional não lhe permite perceber esta obviedade.
Seu compromisso se desfaz na medida em que o instrumento para sua ação é um instrumento estranho, às vezes antagônico, à sua cultura. (4)
O
alienado, seja profissional ou não, pouco importa, não distingue o ano do
calendário do ano histórico. Não percebe que existe uma não-contemporaneidade do
coetâneo.
Todas
estas manifestações da alienação e outras mais, cuja análise detalhada não nos
cabe aqui fazer, explicam a inibição da criatividade no período da alienação.
Esta, geralmente, produz uma timidez, uma insegurança, um medo de correr o risco
da aventura de criar, sem o qual não há criação. No lugar deste risco que deve
ser corrido (a existência humana é risco) e que também caracteriza a
coragem do compromisso, a alienação estimula o formalismo, que funciona como uma
espécie de cinto de segurança.
Daí o
homem alienado, inseguro e frustrado, ficar mais na forma que no conteúdo; ver
as coisas mais na superfície que em seu interior.
Seu
“pensamento” não tem força instrumental porque nasce de seu contexto para voltar
a ele. Constitui-se na nostalgia de mundos alheios e distantes. Seu
“pensamento”, finalmente, não tem força, nem para o seu mundo, porque dele não
nasceu, nem para o outro, o mundo imaginário da sua nostalgia.
Desta
forma, como se comprometer?
Entretanto, no momento em que a sociedade se volta sobre si mesma e se
inscreve na difícil busca de sua autenticidade, começa a dar evidentes sinais de
preocupação pelo seu projeto histórico.
Quanto
mais cresce esta preocupação, mais desfavorável se torna o clima para o
compromisso.
Estamos convencidos de que o momento histórico da América Latina exige de
seus profissionais uma séria reflexão sobre sua realidade, que se transforma
rapidamente, e da qual resulte sua inserção nela. Inserção esta que, sendo
crítica, é compromisso verdadeiro. Compromisso com os destinos do país.
Compromisso com seu povo. Com o homem concreto. Compromisso com o ser mais deste
homem.
Se,
numa sociedade preponderantemente alienada, o profissional, pela natureza mesma
da sociedade estruturada hierarquicamente, é um privilegiado, numa sociedade que
se está abrindo o profissional é um comprometido ou deve sê-lo.
Fugir
da concretização deste compromisso é não só negar-se a si mesmo como negar o
projeto nacional.
[i] “Impedido de comprometer-se verdadeiramente”
significa, para nós, a situação na qual as grandes maiorias encontram-se
manipuladas por minorias, através de ordens. Estas grandes maiorias têm a
impressão de que se comprometem, quando, na verdade, são induzidas em seu
“compromisso”. Escolhem entre as opções (no melhor dos casos) que as minorias
lhes indicam, quase sempre manhosamente, pela propaganda. Existe toda uma
bibliografia sobre este assunto. Sugerimos, contudo, a obra de Fromm, já citada,
e “La élite del Poder”, de Wright Mills, Fondo de Cultura
Económica, México.
(2) O
autor não entende por humanismo, neste como em outros estudos seus, as belas
artes, a formação clássica, aristocrática. a erudição, nem tampouco um ideal
abstrato de bom homem. O humanismo é um compromisso radical com o homem
concreto. Compromisso que se orienta no sentido de transformação de qualquer
situação objetiva na qual o homem concreto esteja sendo impedido de ser
mais.
(3) De
algum tempo para cá, as sociedades latino-americanas começam a por-se à prova,
historicamente. Algumas mais que outras. Começam a tentar uma volta sobre si
mesmas, o que as leva a se auto-objetivarem, e, assim, descobrirem-se alienadas.
Se esta descoberta não significa ainda a desalienação - e admiti-lo seria
assumir uma postura idealista - é, contudo, motivadora para que a sociedade
inicie a procura de sua concretização.
(4) Esta é a razão pela qual defendemos (para bolsistas nacionais que vão estudar em cursos de formação ou aperfeiçoamento em centros estrangeiros de outro nível econômico e tecnológico) um curso prévio e profundo sobre seu país, sobre sua realidade histórica, econômica, social e cultural, sobre as condições concretas de seu atuar, etc. Muitos dos jovens latino-americanos, ao voltarem a seus países, sentem-se como estrangeiros frustrados ou reforçam o número dos transplantes de experiências de outro espaço e de outro tempo histórico. São mais compromissos inautênticos.